Cabos, Tias e Cidadãos Samba

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Blog do Luiz Otávio

J. Muniz Junior

 

 

 

Assim como antigos generais, comandantes e chefe memoráveis campanhas eram chamadas de cabos-de-guerra, os  sambistas participantes de grandes campanhas carnavalescas também passaram a ser considerado cabo-do-samba e consagrados como tal através de ritual solene, dirigido por um Cabo-Mor.

 

Lembremo-nos de que, no mundo do samba da antiga Capital Federal, os sambistas mais velhos recebiam o tratamento carinhoso de tio e tia. Já os maiorais e bambas eram chamados de cabo ou mestre, enquanto o tratamento entre sambista contemporâneos era de mano e mana.

 

Seguindo o exemplo do Rio de Janeiro, o mundo do samba santista passou a adotar igualmente tais denominações, com seus cabos-honoríficos e cabos-mestres, cujas patentes passaram a ser outorgadas anualmente durante ritual solene alusivo ao Daí do Samba.

 

Julgamos oportuno salientar que os títulos de Cabo e Tia foram criados numa homenagem especial aos sambistas veteranos, por suas qualidades pessoais e destacada participação no mundo do samba e no cenário carnavalesco da cidade.

 

Torna-se necessário relembrar ainda que os antigos sambistas, que já haviam recebido o batismo de “lordes”, foram posteriormente promovidos a “cabos” (de acordo com a antiguidade e mérito pessoais). Tal fato não ocorreu com o saudoso Cabo Laurindo (Aureliano dos Santos), que já era conhecido como tal desde os anos 40, quando ajudou a fundar as Escolas de Samba X-9, Vitória e Brasil. Outro fato curioso. O veteraníssimo Cabo Roque (Eugênio Pedro Ramos), o Condestável da X-9, é o cabo-verdiano de nascimento, foi Cabo-foguista da Marinha Mercante e finalmente Cabo do Samba, sendo, portanto, cabo três vezes: Cabo-Verde, Cabo-Foguista e Cabo-do-Samba (patente sambista).

 

Cumpre também registrar que foi o jornalista Antônio Nunes (Lorde Lobisomem), decano cronista carnavalesco que militou em O Diário e A Tribuna, quem começou a selecionar os sambistas para receber tal honraria. Posteriormente, com o desaparecimento do inesquecível “mestre”, herdamos o encargo, na qualidade de decano cronista especializado em samba, desde os tempos de O Diário ( Diários Associados) e do Cidade de Santos (folhas), ambos já extintos.

 

Entrementes, além da patente de Cabo, que equivale a mestre-de-samba, também passaram a serem concedidos títulos de Tia do Samba, a exemplo do primeiro, seguindo um processo de “antiguidade” e/ou ‘merecimento” ou ainda pelas qualidades excepcionais da pessoa indicada.

 

Nesta última fase, os títulos de cabo e de tia foram outorgados às pessoas com mais de vinte anos de bons serviços prestados ao Samba e ao Carnaval Santista, devidamente indicados e aprovados pelo Conba, bem como sacramentado pelo Rei Momo em cerimonial dirigido por um ritualista com a patente de Cabo-Mor do Samba. E, de acordo com as normas então estipuladas, somente um sambistas que tivesse o título de cabo é que podia ser aclamado Cidadão-Samba por “antiguidade” e/ou “merecimento”, através de votação do Conselho. Dessa forma, o cabo que fosse indicado Cidadão-Samba seria submetido a decisão do Conselho do Samba, integrado pelo Rei Momo, pelo Secretário de turismo e um Cabo-Mor, vindo em seguida os conselheiros. Nesta altura dos acontecimentos, o sistema é completamente diferente.

 

A guisa de esclarecimento, devemos ressaltar que o título de Cidadão-Samba é oficial. Portanto, o cabo indicado para desempenhar tal função tinha que gozar de boa reputação, inclusive, não possuir nenhuma ação que desabonasse sua conduta moral.

 

Dentre as normas impostas, o Cidadão-Samba Oficial tinha obrigação de ser educado, alegre, respeitoso e, qualquer ato irresponsável (mau, indigno ou deselegante), na sua maneira de agir ou a prática de mais costumes, resultaria na perda do mandato, isso através de decisão do Secretário de Turismo e do Conselho Oficial do Samba (já extinto).

 

Ainda impera uma certa dúvida sobre o título de Cidadão-Samba: se é municipal ou regional. O certo é Cidadão-Samba da cidade de Santos, ou melhor, Cidadão- Samba Oficial de Santos, uma vez que se trata de um título Oficial reconhecido pela Prefeitura do Município, ocorrendo o mesmo com o título de Cidadão-Samba, que, desde a sua aclamação, passa a integrar a corte carnavalesca de SM o Rei Momo e Rainha do Carnaval, sendo, portanto, municipal.

 

O certo é que cada cidade deve ter o seu Cidadão Samba e a cidadã-Samba, assim como seu Rei Momo, com jurisdição de âmbito municipal e não regional.

 

De boa fonte, sabemos que, na condição de Capital do Samba e do Carnaval, foi o Rio de Janeiro que foram criados as figuras do Rei Momo, Rainha Moma, Cidadão Momo, Cidadão-Samba, Rei do Carnaval, Rei do Samba, Embaixador e Embaixatriz do Samba e outros títulos carnavalescos, como Lord e Lady da corte momística. Dentre eles, um dos mais importantes é o de Cidadão-Samba, que remonta ao ano de 1936, quando passou a ser adotado no antigo Distrito Federal.

 

Nos primórdios, a eleição do Cidadão –Samba Carioca era realizada através de cupons publicados nos jornais (voto popular), com o patrocínio da Associação das Escolas de Samba do Brasil, que perdurou até 1950.

 

O primeiro Cidadão-Samba do Rio de Janeiro foi Eloy Anthero Dias (Mano Eloy), representante da Escola de Samba Deixa Malhar. Na sua segunda fase, que se estendeu até 1964, - na base da compra de votos através da Associação das Escolas de Samba, foi vencedor João Paiva dos Santos (Pavinha), da E S Paraíso do Tuiuti.

 

Promovido na sua terceira fase, com provas para os candidatos (cantar, sambar, tocar instrumentos e falar com desembaraço), o concurso contava com o patrocínio da Associação das Escolas de Samba da Guanabara. Foi assim que, em 1965, sagrou-se vitorioso Sebastião Moretson (Tião Capeta), da E S Unidos da Vila Isabel.

 

A partir de 1972, a escolha passou a obedecer a um critério de “antiguidade”, com a indicação de verdadeiros baluartes do passado, como Antônio Rufino dos Reis, da Portela; Antônio dos Santos (Mestre Fuleiro), do Império Serrano; Manuel Laurindo da Conceição (Neca da Baiana), da Acadêmicos do Salgueiro, e outros.

 

Oportuno recordar que, em Santos, o primeiro a receber a faixa oficial de Cidadão-Samba foi o consagrado advogado Derosse José de Oliveira, eleito no II Simpósio do Samba, promovido pelo Conselho Municipal de Turismo, em 1967. Sua função limitou-se à participação naquele Simpósio, não tendo ele integrado a corte do Momo no carnaval de 1968, como em nenhum outro. Como não foram mais realizados simpósios em Santos, a eleição de um novo Cidadão-Samba ficou no esquecimento.

 

Na qualidade de cronista do mundo do samba, tentamos, no final daquela década, indicar – “por antiguidade e merecimento” – um consagrado sambista da cidade: Daniel Dias do Nascimento (Daniel “Feijoada”), considerado o maioral dos bambas do samba santista. Todavia, o seu valor de sambista nato não foi reconhecido pelos Órgãos oficiais da cidade, talvez devido a motivos políticos. Inobstante, suas façanhas de renomado de batuqueiro hão de perdurar por muito tempo na lembrança dos velhos sambistas.

 

Outras tentativas se seguiram para promover certames sambísticos, como foi o caso da eleição do “Cidadão-Samba – Classe A”, que a Império do Samba levou a efeito em fevereiro de 1976, tendo como vencedor o sambista Luiz Antonio dos Santos (“Chocolate”), da ES Brasil. Mas, por se tratar de um concurso promovido por uma escola de samba, o título não foi reconhecido oficialmente.

 

Em janeiro de 1978, a Sectur resolver patrocinar um certame para a escolha do Cidadão-Samba da cidade, através de provas, oferecendo, além da “faixa oficial, um prêmio de 4 mil cruzeiros. Embora atentos ao resultado, não logramos nenhuma informação a respeito, existindo afirmativa de que o concurso acabou sendo cancelado por falta de candidatos.

 

Em 1979, informados de que a império do Samba não desfilaria no carnaval devido uma crise interna, tomamos então a iniciativa (através da coluna “Só Samba”, do Cidade de Santos) de indicar um outro renomado sambista local para ser o Cidadão-Samba Oficial: Dráusio da Cruz (Cabo Brilhantina). Na época, além de rei Momo (WEC) contamos com o apoio dos cronistas José Eduardo Barbosa (Lord Costeleta), de A Tribuna, e de Irineu Camargo Campos (Lorde Pavê), do Cidade de Santos.

 

De imediato submetemos o nome de Cabo Brilhantina à apreciação do então Secretário de Turismo, Carlos Lambert, que aprovou a indicação. E assim o Cidadão-Samba Oficial de 1979 foi aclamado pelo sistema de ‘antiguidade e merecimento”,  tendo sido o primeiro a subir no palanque como integrante da corte de Momo, bem como na condição de autoridade maior do mundo do samba.

 

Desta época em diante, passou a vigorar definitivamente esse sistema, contando sempre com a apreciação e da aprovação do titular da parta de turismo. Nos anos seguintes, foram aprovados para o honroso cargo os destacados sambistas: Euripedes Adão Ribeiro (Cabo Lourinho) e Rubens dos Santos (Cabo Apito de Ouro), em 1980 e 1981, respectivamente.

 

Pela ordem de antiguidade cabia ao sambista Roberto Fernandes desempenhar a função de Cidadão-Samba em 1982, mas como havia sofrido um acidente, não apresentava condições físicas para fazê-lo.

 

Diante do imprevisto, foram então convocados dois sambistas que se equivaliam em “antiguidade e merecimento”, Carlos Alberto Silva (Cabo Carlinhos), da ES X-9, e Wilson José Ferreira ( Cabo Nego Wilson), cria do Império do Samba. Os dois participaram de uma acirrada disputa durante uma batalha de confete promovida pelo BC  Oswaldo Cruz na noite de 26 de janeiro de 1982, mo Brooklin Santista (rua Campos Mello). Sagrou-se vitorioso o primeiro, que foi a aclamado Cidadão-Samba 1982, enquanto o segundo, por direito adquirido, veio a receber a faixa do seu antecessor no ano seguinte.

 

É válido registrar que a comissão julgadora da memorável disputa entre o Cabo Carlinhos e o Cabo Wilson foi constituída pelo Rei Momo Waldemar e pelos Cidadãos-Samba Cabo Brilhantina, Cabo Lourinho e Cabo Apito de Ouro (já representando o Conba).

 

Devidamente aprovado pelo Conba, coube ao sambista Roberto Fernandes (Cabo Furado) a título de Cidadão-Samba, versão de 1984, e a Celso Luiz de Oliveira (Cabo Celso do Pandeiro), em 1985 ambos da pioneira X-9.

 

O último Cidadão-Samba escolhido pelo Conba, obedecendo ao sistema “Antiguidade e Merecimento”, foi o sambista Nahum Caetano da Silva (Cabo Magnífico), da ES X-9, que veio a ostentar a faixa oficial de 1986.

 

No que tange à última patente de cabo apreciada pelo Conba, verificou-se no dia 20 de novembro de 1986, aprovada por unanimidade e concedida por “Merecimento” ao sambista Celso Luiz Gonçalvez Severino (Cabo Clay), sacramentado no ritual solene no Dia do Samba daquele mesmo ano, pelo Rei Momo Waldemar e pelo Cabo-Mor Batucada, Mentor do Conba.

 

Aconteceu que com a intervenção da União das Escolas de Samba da Baixada Santista, como entidade única nos assuntos relacionados com o samba  e suas escolas, o processo até então adotado para a escolha do Cidadão-Samba (por “Antiguidade” e/ou “Merecimento”), deixou de vigorar. Conseqüentemente, ficou decidido que o Cidadão-Samba passaria a ser escolhido através de concurso da UESBAS, reunindo candidatos representantes das agremiações do mundo do samba.

 

Por sua vez, o Conba, já em fase de desativação, decidiu restringir a concessão de patentes de cabo e títulos de tia, ficando, inclusive, sem obrigatoriedade, a patente de cabo para o sambista ser eleito Cidadão-Samba.

 

O certo é que, com a extinção do Conba, não mais foram outorgado patentes em ritual solene na data consagrada ao samba, passando então a ser entregue o diploma da Ordem da Batucada, concedida pelo Marechal do Samba (Cabo-Mor Batucada).

 

E assim, sob a supervisão da UESBAS nessa segunda fase, foram escolhidos (através de disputa) os Cidadãos-Samba de 1987 e 1989, a exemplo do que já vinha ocorrendo desde 1986, com o título de cidadão-Samba.

 

 Todavia,   com a   extinção da UESBAS   em 1989, a   escolha dos Cidadão-Samba e,   conseqüentemente, a   cargo da   Ordem dos   Sambistas da   Velha   Guarda,   que passou a   convocar   sambistas   veteranos   para   assumir os   respectivos   cargos.   Quanto  à   aprovação dos   nomes indicados   pela OSVG, ficou   por   conta da   comissão Organizadora do   Carnaval   Oficial, vinculada à Sictur,   que,   posteriormente, passou a   promover a   escolha,   com   apoio do   Conselho dos Representantes das   Escolas de   Samba de   Santos e da SECULT.

 

Publicado—Livreto “Toque de Alerta para o Carnaval de 1987”  e no Livro "O Samba Santista em Desfile".

 

 

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